Sexta-feira, Junho 26

Pálido, mas quente.

Para G. Kramer

Pálido mas quente era o corpo da vítima, anunciou o jornal e na mesma hora o controle remoto caiu da minha mão. Na verdade não caiu: pulou e correu de susto espanto e medo, de tensão desespero e terror. Foi exatamente assim que fiquei quando ouvi a notícia na televisão. O coração na boca e as mãos ainda manchadas com sangue, com cheiro.

Corri pela casa. Fechei as janelas, as persianas. Minhas mãos sacudiam e nelas o molho se debatia com as chaves se chocando em guerra num som de chocalho. O ar ausente. Respiração e concentração para encontrar o par de chave com fechadura. Meu corpo na máxima tremolencia. Tranquei-me às sete-chaves. Feito isso, olhei o corredor distorcido pelo olho-mágico, incerto, olhei pela fresta da fechadura, deitei para ver pelo vão do capacho. Eu queria ter certeza que ninguém estava vindo, que ninguém estava vendo, que ninguém estava sabendo. Mas eu sabia. Flashs, lembranças desordenadas, amnésia. A sala quieta, os móveis me observando. Certamente, se houvesse vizinhos, eles ouviriam as batidas do meu peito. Eu, o medo, e lá fora o corpo estendido.

Num movimento repentino e paradoxo, corri pela casa novamente e desfiz o esconderijo. Abri a janelas, as portas, deixei o ar entrar. Enchi os pulmões buscando autocontrole. De onde vem a calma? Esconder-se era entregar-se. Talvez um cigarro, mais uma dose, talvez. Lavei a cara e saí à rua. Na caruda.

O bairro estava queito e o silêncio é sempre suspeito. Distante uma sirene de polícia ou de ambulância que, a essa hora, não salvaria ninguém. Estava feito. Na rua só tititi do povo. Misturados a eles, eu soltei minha falsa e irônica revolta: É... minha gente, a vida é agora e não jaja. A voz saiu tremula e falhada, desde ontem eu não falava. Entrei no bar e na roda de amigos o assunto óbvio, o corpo jogado na rua das rosas. Entre argumentos e lamentações alguém soltou que a polícia já tinha suspeitos. Idem ao controle-remoto, o copo pulou da minha mão e meu corpo revolveu-se em sacolejo. Quando consegui controlar as pernas, saí pra refazer o trajeto, procurar por pistas. Eu precisava ver a vítima.

No caminho as lembranças tomaram ordem. A primeira dose, a segunda, a moça, os cigarros, a conversa de puta, outra dose, os seios, o dinheiro, mais whisky, o quarto. A decepção, a raiva e foram tantas doses. Nessa hora, não sei o porquê, uma calma quase pagã me subiu pelos pés me tranquilizando. Acendi um cigarro. Da esquina dava pra ver o bolo de gente assistindo a agonia deitada.

Fumei sem pressa.

E lá estava... duro seco e ainda muito pálido, mas agora o corpo da vítima já tinha esfriado.

Segunda-feira, Junho 8

Brian Moore

Love isn’t an act, it’s a whole life. It’s staying with her now because she needs you; it’s knowing you and she will still care about each other when sex and daydreams, fights and futures — when all that’s on the shelf and done with. Love—why, I’ll tell you what love is: it’s you at seventy-five and her at seventy-one, each of you listening for the other’s step in the next room, each afraid that a sudden silence, a sudden cry, could mean a lifetime’s talk is over.
— Brian Moore,
The Luck of Ginger Coffey

Segunda-feira, Maio 11

Já nem sei que sou.

— Quanto tempo faz?

Ela se perguntou quando encontrou aquele postal sem data e sem remetente. Fazia precisamente seis anos, dois meses e onze dias desde a viagem desconhecida rumo ao mundo novo. Mundo que ele já se adaptava. Lavando pratos a muitos graus abaixo de zero, dormindo pouco e com desconhecidos, sem sonhar com a data de retorno. Neve, montanha, céu, chão, folhas, o ar; havia a novidade. As praças e o sol bem distante, esquentado, quem sabe, o Brasil, pra onde ele ligava no começo. Eram conversas de poucas palavras, de silêncios. Satisfaziam-se assim. Mas o tempo logo trouxe o seu efeito nocivo. Fez derreter com a neve as boas histórias de antes. As lembranças doces, como a foto e a letra miúda daquele postal. Criou-se um espaço entre eles. De quilometros e de destinos. Uma miscelânia de sentimentos incógnitos.

Troquei de nome e agora tenho barba. Passiei com cães em Barcelona, já juntei bolinhas da Davis, lavei pratos em Montreal, Hamburgo e Dublin. Fui barman em Lyon e vendi livros em Oxford. Aprendi o melhor inglês. Minha pele congelou e queimou tantas vezes que perdeu o tom. Em Florença eu conheci uma pessoa. Às vezes acho que não me conheço mais. Tão pouco você me conheceria. Não me espere. Não volto. Já nem sei que sou.

Ela não chorou. Não havia mais saudade.

Segunda-feira, Abril 27

26, abril.

Para J. Angelin

Teus sinais me confundem da cabeça aos pés, mas por dentro eu te devoro. Teu olhar não me diz exato quem tu és, mesmo assim eu te devoro. Te devoraria. A qualquer preço, porque te ignoro te conheço, quando chove ou quando faz frio. Noutro plano, te devoraria tal Caetano a Leonardo DiCaprio. É um milagre... Tudo que Deus criou pensando em você, fez a via-láctea fez os dinossauros, sem pensar em nada fez a minha vida e te deu. Sem contar os dias que me faz morrer, sem saber de ti jogado à solidão; mas se quer saber se eu quero outra vida: não! não!

Eu quero mesmo é viver pra esperar, esperar, devorar você.
Eu quero mesmo é viver pra esperar, esperar, devorar você.
Te devoro,
Djvan.

Quinta-feira, Abril 16

Pequenas perdas

"Perder-se significa ir achando
e nem saber
que fazer do que se for achando."
Clarice Lispector

Perda grande, perda pequena. Seja um pente ou um amor, salvo as devidas proporções, fará falta, com certeza. E digo isso por experiência. Sou um eterno perdedor. Perdedor de papéis, perdedor de momentos, de pessoas. Perco a hora, perco o foco, perco o tesão pelas coisas. Se você já perdeu algo ou alguém, deve saber bem do que eu estou falando. Daquele momentâneo desespero por não saber em que raio de bolso você guardou aquele papel anotado o nome e o telefone dela, ou dele. Daquela ponta de saudade que dá quando você abraça um amigo por saber que ele vai embora, seja por ora, por meses ou pra sempre, e já te aviso que se for pra sempre vai doer muito mais. Perder momentos é dolorido também, principalmente porque momentos não se repetem jamais. Um por do sol que você não assistiu, uma festa que pré julgou ser chata, uma piscada malandra, que você não viu porque não olhou pra trás. Aparentemente, são pequenas perdas e só.

Perder esvazia a gente. Cada coisa, pessoa, que a gente perde, leva um pedacinho nosso. E é justamente esse pedacinho que nos faz revirar a gaveta, a casa, a rua, a cidade procurando e procurando pelo bentido pedacinho-seu daquela sua coisa. Dependendo do que for, leva um pedação. Aí perde-se um braço, um pulmão, dois litros de sangue e mais de três terços do seu coração. É por isso que dói, que faz falta.

Eu tenho perdido o time de algumas coisas. Tenho perdido algumas pessoas. Perder sem achar. Faz falta.