Terça-feira, Dezembro 1

Juro que passa

— Já faz tanto tempo.
— Ah, nem tanto vai.
— Pô. Tem o quê? Tá pra mais de cinco anos, não?
— Que exagero. Vejo que nesse tanto-tempo você não mudou muito. O mesmo sujeitinho exagerado e dramatico. O de sempre.
— Eu sou trivial. Sou mó sem graça. Sempre fui. Não sei como você me aguentou.
— Exagerado, dramático e sem meias palavras. É; não mudou mesmo.
— Mudei sim. Engordei. E agora deixei esse bigode.
— Ralo e falho, igualzinho...
— Ó: você tá 'super' diferente viu; su-per!
— Tô sim! Loira, linda e bela.
— Ahan. Su-per.
— Brincadeira. To igual também. Talvez pior. Na lama. Foi fóda seguir sem você.
— Tá foda, se é que posso acrescentar.
— Tá e é assim que vai ficar. Qualquer hora tudo isso vai passar. Você jurou.
''
Juro que passa. Não demora e você encontra alguém legal. Daqui um dia, um ano, em outra vida; deve passar.'' - jurei.
— Pois é, não passou. E já faz tanto tempo.

Quarta-feira, Novembro 18

Por acaso, outra vez.

— Acontece sem querer - mesmo que pareça proposital. Ó, tá meio tarde, eu sei, mas queria pedir desculpas. Sabe, queria dizer que não fiz pra te magoar. Inclusive queria te dizer que sou incapaz de te magoar.
— Ah, não é não. Você tem praticamente o dom de me magoar.
— É sem querer.
— Tudo é. Você sai e não liga e é sem querer. Você me deixa esperando, e é sem querer. Você, às vezes, prefere os outros à mim e eu aposto que é sem querer, claro.
— Desculpa.
— Agora é tarde e que bom que você já percebeu. - E outra, você vem com esse papinho agora que tá doendo, agora que você não tem mais uma idiota te esperando, agora que você tem que se virar. - Sabe; te mimei de mais. Você queria a mão e eu me dei toda. Você queria espaço e eu te dei o céu. Te dei as estrelas. Você não pensa nisso?
— Mas.
— Mas nada! Não tem mais. Não dá mais. O amor nem sempre é suficiente. Deixa assim como está. Vá refletir sobre sua vida. Seus atos. Siga seu caminho e eu vou seguir o meu. Quem sabe a gente não se encontra por aí. Qualquer dia, qualquer hora, por acaso, outra vez.

Sexta-feira, Setembro 11

Pause

[update] Voltei, mas o miniblog continua.

Aos amigos que me lêem, que comentam aqui e não tem meu retorno: eu volto. Prometo. Por ora tenho escrito qualquer coisa rápida, para pessoas sem tempo, como eu, como nós.

Literatura de Araque, quando quiser, visite.

Quarta-feira, Agosto 12

Feiticeira

Quatro.
Agosto.
Ilha Bela.

De repente me dei conta que ali o tempo não passava. E que sozinho, minutos eram de horas. Foram longos aqueles dias. Pensei tanto em tanta coisa... o que teria acontecido se eu tivesse feito diferente tal coisa, que resultado essa coisa daria, coisa boa? ruim? Premeditei resultados de coisas ainda por fazer e quando o resultado parecia arriscado eu eliminava aquela coisa sem ter ao menos tentado. Só depois fui pensar que o mal resultado dessa coisa poderia ser só coisa da minha cabeça cheia de coisa. Nunca se sabe, concluí, qualquer coisa pode dar em qualquer coisa. Assim vamos deixando de fazer muita coisa por medo que essa coisa seja boa demais. E coisa boa você sabe... é difícil de largar. Eu digo coisa boa-ruim, você deve ter me entendido. Eu ponderava passado e futuro enquanto o presente estava ali, passando junto à brisa morna da praia. Águas limpas, verdes, pequenas ondas quebrando na beira, o barulho; seres no céu e na areia de mariscos e conchas, ao longe alguns cães brincando de pega-esconde — imaginei. Pedras quietas, exaustas de sol e sal. O paraíso era ali, e agora. Só não pra mim, solitário. Solidão sempre acompanha indiferença, desprezo. Só muito depois é que vem a saudade.

— Mas não vamos ficar nessa paranóia, camarada. Mais meia hora assim e você endoida, oras! Vamos lá, um banho de mar. Que tal? Ouça, a água está bem fria e é disso que você precisa. Sal grosso. Ande, mergulhe logo, esfrie essa cuca quente de sol, de meditação. Se conseguir, prenda um pouco de ar e fique uns instantes embaixo, pode até abrir os olhos, aqui não importa a profundidade você consegue ver o fundo, tem até pedra, tem branca, rosa, bronze e se der sorte acha uma azul; espere o limite do não-ar e suba, sentirá uma espécie de, de..., não sei te explicar agora amigo. É como se meio-você ficasse n’água, sei lá. Leveza. Quando o mar acalmar, olhe seu rosto refletido e perceba que ele não reflete mais reflexão. Está ótimo agora, cara. És outro homem.

Realmente eu era.
Praia da Feiticeira. Nunca vou me esquecer deste nome.

Sexta-feira, Junho 26

Pálido, mas quente.

[update]: A coisa começou com uma frase solta do Guilherme Kramer. Peguei no ar. Aí virou texto, depois arte. Aí virou festa. - Um abraço, meu camarada. / Nov2009 --

Pálido mas quente era o corpo da vítima, anunciou o jornal e na mesma hora o controle remoto caiu da minha mão. Na verdade não caiu: pulou e correu de susto, espanto, medo, tensão, desespero; de terror. Fiquei assim quando ouvi a notícia na televisão. O coração na boca e nas mãos ainda o cheiro; as manchas.

Corri pela casa. Fechei as janelas, as persianas. Minhas mãos sacudiam e nelas o molho se debatia com as chaves se chocando em guerra num som de chocalho. O ar ausente. Respiração e concentração para encontrar o par de chave com fechadura. Meu corpo na máxima tremolencia. Tranquei-me às sete-chaves. Feito isso, olhei o corredor distorcido pelo olho-mágico, incerto, olhei pela fresta da fechadura, pelo vão do capacho. Eu queria ter certeza que ninguém estava vindo, que ninguém estava vendo. Mas eu sabia. Com flashs e lembranças desordenadas, mas sabia. A sala quieta revelava, os móveis me observando. Eu hostil. Certamente, se houvesse vizinhos, eles ouviriam as batidas do meu peito. Eu, o medo, e lá fora o corpo estendido.

Foi quando, num movimento repentino e paradoxal, corri pela casa novamente e desfiz o esconderijo. Abri a janelas, as portas, deixei o ar entrar. De onde vem a calma? Vende? Preciso comprar. Afinal, esconder-se era entregar-se. Talvez um cigarro, mais uma dose. Lavei a cara e saí à rua.

O bairro estava quieto e o silêncio é sempre suspeito. Distante uma sirene de polícia ou de ambulância que a essa hora não salvaria ninguém. Estava feito. Na rua só tititi do povo. Misturados a eles, eu soltei minha falsa e irônica revolta: É... minha gente, a vida é agora. A voz saiu tremula e falhada, desde ontem eu não falava. Entrei no bar, pedi o de sempre. Na roda de amigos o assunto era óbvio, o corpo no quarto. Entre argumentos e lamentações alguém soltou que a polícia já tinha suspeitos. Idem ao controle-remoto de manhã, o copo pulou da minha mão. Meu corpo sacudindo. Quando consegui controlar as pernas, saí pra refazer o trajeto, procurar por pistas. Eu precisava rever a vítima.

No caminho as lembranças tomaram ordem. A primeira dose, a segunda, a moça, um trago, a conversa de puta, outra dose, um decote, um bico, dinheiro a toa, mais whisky, o quarto. A decepção, a ira e foram tantas doses... Nessa hora, não sei o porquê, uma calma quase pagã dominou. Relaxei e até acendi um cigarro. Da esquina dava pra ver o bolo de gente assistindo a agonia deitada. Fumei sem pressa.

E lá estava... duro seco e ainda muito pálido, mas agora o corpo da vítima já havia esfriado.