Para G. Kramer
Pálido mas quente era o corpo da vítima, anunciou o jornal e na mesma hora o controle remoto caiu da minha mão. Na verdade não caiu: pulou e correu de susto espanto e medo, de tensão desespero e terror. Foi exatamente assim que fiquei quando ouvi a notícia na televisão. O coração na boca e as mãos ainda manchadas com sangue, com cheiro.
Corri pela casa. Fechei as janelas, as persianas. Minhas mãos sacudiam e nelas o molho se debatia com as chaves se chocando em guerra num som de chocalho. O ar ausente. Respiração e concentração para encontrar o par de chave com fechadura. Meu corpo na máxima tremolencia. Tranquei-me às sete-chaves. Feito isso, olhei o corredor distorcido pelo olho-mágico, incerto, olhei pela fresta da fechadura, deitei para ver pelo vão do capacho. Eu queria ter certeza que ninguém estava vindo, que ninguém estava vendo, que ninguém estava sabendo. Mas eu sabia. Flashs, lembranças desordenadas, amnésia. A sala quieta, os móveis me observando. Certamente, se houvesse vizinhos, eles ouviriam as batidas do meu peito. Eu, o medo, e lá fora o corpo estendido.
Num movimento repentino e paradoxo, corri pela casa novamente e desfiz o esconderijo. Abri a janelas, as portas, deixei o ar entrar. Enchi os pulmões buscando autocontrole. De onde vem a calma? Esconder-se era entregar-se. Talvez um cigarro, mais uma dose, talvez. Lavei a cara e saí à rua. Na caruda.
O bairro estava queito e o silêncio é sempre suspeito. Distante uma sirene de polícia ou de ambulância que, a essa hora, não salvaria ninguém. Estava feito. Na rua só tititi do povo. Misturados a eles, eu soltei minha falsa e irônica revolta: É... minha gente, a vida é agora e não jaja. A voz saiu tremula e falhada, desde ontem eu não falava. Entrei no bar e na roda de amigos o assunto óbvio, o corpo jogado na rua das rosas. Entre argumentos e lamentações alguém soltou que a polícia já tinha suspeitos. Idem ao controle-remoto, o copo pulou da minha mão e meu corpo revolveu-se em sacolejo. Quando consegui controlar as pernas, saí pra refazer o trajeto, procurar por pistas. Eu precisava ver a vítima.
No caminho as lembranças tomaram ordem. A primeira dose, a segunda, a moça, os cigarros, a conversa de puta, outra dose, os seios, o dinheiro, mais whisky, o quarto. A decepção, a raiva e foram tantas doses. Nessa hora, não sei o porquê, uma calma quase pagã me subiu pelos pés me tranquilizando. Acendi um cigarro. Da esquina dava pra ver o bolo de gente assistindo a agonia deitada.
Fumei sem pressa.
E lá estava... duro seco e ainda muito pálido, mas agora o corpo da vítima já tinha esfriado.