Para Carolina Medina Coelho
Não fui a França mas quase. A começar do meu endereço: rua Paris, Perdizes, zona oeste de São Paulo. Se bem que essa referência não é lá muito adequada. Essa rua é vazia sem cor e sem graça, começa em uma viela e termina no cruzamento da Havaí; mas voltemos para a Europa. Ainda não fui pra Paris mas tenho na minha mochila um sketchbook cheio dicas de lá. Passeios, comidas, expressões, mapas. Eu já fiz e desfiz tantos roteiros que é impossível achar o nome de algum lugar entre as várias linhas coloridas que cortam as ruas. Tenho também comigo um livro do Hemingway e não to nem aí se por isso me rotularem de blasé. Acho até chique esse extremo (e estúpido) estereótipo francês, apático, de boina e camisa listrada bebendo champanhe sem porquê. Uma coisa meio rua Oscar Freire, meio pôr do sol no gramado do Jardim Du Luxembourg no miolo da primavera. Sabe? Nem eu.
Francês falo pouco. Coisa-outra aprendi lendo tradução de
música e, de tanto, peguei sotaque. Se por exemplo vou indicar uma banda (ou livro ou o que quer que seja) para alguém,
faço questão de pronunciar todas as sílabas corretamente. E se (por algum motivo) vou falar "abajur", digo “abat-jour”, fazendo biquinho e tudo! Idem para bâton, soutien, nécessaire e várias outras expressões que estão
embutidas no português. Acho um absurdo quem na padaria pede uma “bomba
de chocolate” ao invés de uma éclair. Já que
não fui a Paris, faço de conta.
Você conhece o Parque da
Independência? Em frente ao Museu do Ipiranga, zona sul. Gosto daquele
lugar. O caminho que
dá no museu é cercado por árvores, faz dele uma Champs-Elysées. Eu brinco que o prédio do museu é um dos palácios de
Versailles, é o Louvre! Se hoje ligarem o chafariz isso aqui vai se
transformar no Jardins du Trocadéro, perto do rio Sena. Não é
fantástico? Quero abrir uma champanhe quando as flores deste Parc de
Belleville despertarem. A Eiffel está no meu bolso, com a chave do
carro.
Aos sábados vou em um restaurante na Vila Mariana. Um lugar simples. Não tem couvert, chef,
sommelier, mas neste dia eles servem um mexido de berinjela,
tomates e abobrinha que é delicioso! Não chega a ser àqueleee autêntico
ratatouille, falta pouco porém. Gosto de olhar
as casas da região enquanto espero meu prato, em especial uma de esquina onde colaram um poster de show por cima de um grafite que tapava uma pichação feita numa parede bem
esfarelada, por cima de tudo há ainda uma coisa meio verde que eu
não tenho certeza se é a tinta, mato ou mofo. Eu sei que se colocarem
uma moldura ali vai lembrar (e muito) um quadro do Matisse.
Do meu apartamento vejo as antenas da avenida Paulista, quando
anoitece me imagino na Cidade Luz. A vista é sensacional, você não acha?
_texto para o Concurso Cultural Aliança Francesa 2011 _tema: A França em São Paulo
1 - comentaram:
Acho que vou arranjar um motivo e ir a Paris! ;)
Mas será que da pra achar só um!?
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