"Why do you smile that way?
l never know if you’re judging me,
l never know if you’re judging me,
absolving me or mocking me.” - 8½ (1963)
Vou queimar a casa, a nossa casa, agora. Só não me decidi ainda como vou dar início a este evento. Talvez com uma vela. Com um fogo fraco, que às vezes ameaça sumir, mas segue firme no pavio até alcançar a toalha de tricô que decora a mesa, a linda a mesa que ganhamos sei lá de quem. A lã dá vida nova a chama que toma além da mesa, as cadeiras e o carpete de madeira que você tanto insistiu. Que queime! Junto das amostras de cortina que não tivemos tempo de escolher. Vai ser bom ver o fogo alcançando os cômodos, principalmente aquele muquifo que demos o nome de "escritório".
Pensei também em deixar aberto o gás da cozinha, mas a explosão pode atrair polícia, bombeiro, reportagem, curiosos e certamente um “herói” virá atrás de nossos corpos, sem conseguir sair depois. Não pretendo armar esse auê. Quero um clima cinematográfico, poético como Almodóvar e cruel como Tarantino, se possível em preto e branco para dar um quê de dramático. Cena: a fumaça pinta de preto o teto, os móveis estalam como lenha de fogueira, a louça se dissolve, os metais derretem e fundem-se em formas, depois, indecifráveis. Há muito papel queimando a toa pelo ar, saindo pela janela as labaredas evadem o telhado e quase tocam o céu. Isso em câmera lenta vai ficar muito bonito.
Vou queimar você. Seus presentes, bilhetes, pertences e todas as suas fotos vão virar fumaça daqui a pouco. Meus perfumes enfim terão boa utilidade: combustível. Notas de bergamota, jasmim, sândalo, vetiver, âmbar, tabaco e almíscar, vão queimar com a que você imprimiu no nosso edredom. Que fragrância deliciosa! Fiódor, Lispector, Machado, Rodrigues, Woolf, Murakami, Joyce, Telles, Abreu, Orwell, Buarque, Neruda, Garcia e suas respectivas histórias evaporarando com a nossa. Triste. Só não caio em pranto porque água nenhuma é bem-vinda aqui.
Saiba você, querida, que este fogo não é fruto de ódio. Na verdade, desconheço sua origem. Estou confuso. Por várias e várias vezes me faço a mesma pergunta que vi recentemente em um filme: por que você sorri assim? Eu nunca sei você está me julgando, me perdoando ou tirando um sarro da minha cara. Me diga: por que você me olha desse jeito? Eu nunca sei se você olhando para mim ou através de mim. Quando você me encara acho que cresce um iceberg no meu esôfago. Fico paralisado como um boneco de neve que derrete de dentro para fora sem que ninguém perceba. Você já percebeu? Esse gelo me queima.
Quando você voltar haverá talvez nada. O fogo terá queimado até o concreto do nosso doce lar. Com sorte você vai chegar em tempo de assistir a última brasa virando cinza, de vez.
7 - comentaram:
muito bom. queimou meu ego.
o fogo que arde sem se ver
ótimo texto
Parabens
Muito bom mesmo :)
Você não está virando um grande escritor (de textos grandes ou não), você é.
Tava fazendo falta por aqui, cara.
Continue "vomitando" ou queimando coisas.
Abraço!
Passei por aqui, amei amore!
Vá lá e bote pra fuder.
Todo esse fogo para derreter o iceberg que cresce em seu esófago! Gelo que queima! Gostei das figuras que usou, tudo muito palpável e intenso!! Beijus,
Postar um comentário