Sexta-feira, Maio 20

É o que dizem por aí.

O sujeito estava caído perto de casa quando dei para ele um maço de cigarro que encontrei no bolso daquela minha jaqueta de couro remendada, se lembra dela? Sim! Aquela que eu insistia em usar nas reuniões do nosso já extinto clube de motoqueiros. Pois bem, o maltrapilho estava fedendo à mijo e pinga, e o pessoal da rua arquitetava um motim, de mangueiras, balde e escovão, para lavar o miserável. E ele lá... numa boa, selecionou um cigarro, perguntou do isqueiro. Minha vontade foi atear fogo naquele crápula, me contive porém. A vida já o castigara. Se bem que, se formos analisar em profundidade, muito disso é consequência das más companhias que ele escolheu viver, a banda podre, sempre querendo uma gandaia sem fim, uma birita a mais, uma jogatina valendo dinheiro; dizem até que foi exatamente esta a razão de sua decadência. Apostas amigo... você sabe. Começa como brincadeira, coisa pouca, cinco reais, que sejam; aí você ganha uma vez, duas, perde, ganha de novo, duas, três, perde e de repente ganha 4 vezes seguidas; aí anima, dobra a aposta: dez, cinquenta, cem reais. O fim disso é o que vemos neste ser esculhambado. Ouvi à boca pequena, que ele já apostou de tudo: um autêntico sapato italiano de couro, um souvenir de Buenos Aires, um relógio de ponteiros dourados, um isqueiro Zippo, uma garrafa de um uísque famoso, além de um barbeador elétrico, vários livros, um chapéu panamá e até algumas pequenas pratarias como um escapulário. O pessoal aceitava e, ao fim da partida devolvia com dó. A má fase no jogo entretanto, trouxe para ele uma sorte, o amor. Como dizem... procurando não se acha. Sabe quando você procura seus óculos e não os encontra porque eles estão na ponta do seu nariz? Assim o amor é. A tal moça transformou o canalha em um cidadão apresentável. Com casa, comida, roupa limpa e barba feita, era possível manter um diálogo saudável com o pé-rapado. Falamos certa vez, durante horas e sobre assuntos diversos, das suas aventuras de moleque, dos empregos que abandonou, das noitadas nos bordeis pulguentos onde ele "se iniciou", das primeiras doses ainda no colégio até ao coma alcoólico em mil novecentos e noventa e dois. Disse estar feliz no relacionamento, mas filosofou: "relacionamentos são complicados... Até os que parecem felizes são cheios de problemas no backstage. Agradar sem se desagradar é raro. De repente você admite uma coisa que não gostaria e isso gera uma pequena fissura na coluna que sustenta a relação. Aí vem trincas, as rachaduras, as fendas, os buracos; nesse ponto, qualquer besteirinha é tempestade: um copo sujo na pia, um abraço menos apertado, um atraso de quinze minutos faz com que tudo desmorone como acontece nos terremotos da Ásia". Segundo às más línguas do bairro, esse murmúrio basea-se no fato de sua amada estar rendida ao vício do jogo. Durante os meses de convívio, aprendeu as artimanhas do carteado e agora é temida pelos mais experientes botequeiros da região. Infeliz no amor e sem sorte no jogo, ele foi-se daqui. Escafedeu-se. Nunca mais vi aquele farroupilha. Acho que morreu. Pelo menos é o que dizem por aí.

4 - comentaram:

Z3R0 disse...

Doidera Lucão! Só no carteado...

Ricardo disse...

muito bom!

Ana D disse...

Adoro perceber os detalhes de uma história..E os finais e os títulos..Você me "pegou" nesse...Curti e volto.

Anônimo disse...

Prefiro ser feliz no amor! Ser feliz com você meu amor. ;)