Se o ano de 2001 só era no possível na ficção do cinema, quem dirá Facebook. Por isso, os poucos amigos que eu tinha, eram os mesmos que gastavam comigo as tardes de maio bebendo refrigerante de litro. Dividíamos entre vários, disputando, entre fichas de fliperama e pebolim, a última gota sem gás que sempre sobrava no fundo da garrafa; na época, ainda de vidro e retornável. Minha mãe ficava fula quando, sem (ou por) querer, a gente quebrava o vasilhame e usava o vidro moído como cortante em linha de pipa. Sorte minha por ter um pai tão gente boa. Lembro-me de vê-lo apoiado no balcão do bar, com o cigarro atrás da orelha, os dedos sujos com o giz do taco, o olhar estratégico, atento à mesa, calculando a próxima jogada; ansioso, ele usava a ponta do taco para coçar a orelha. Cena hilária, gargalhada coletiva. Até o rival achava graça, perdia o foco e errava a bola, sempre. Então era só esperar o velhaco dominar a mesa, encaçapada a oito e liberar geral: refrigerante e fichas para molecada!
Eram longas aquelas tardes... Ninguém tinha relógio e calculávamos as horas pelo movimento da rua. Por exemplo: quando as meninas de shorts colados começavam a sair de suas casas, era perto das três e trinta, hora do vôlei na quadra da matriz. Coincidentemente, hora do boteco baixar as portas para a siesta do dono, um velho assustador que expulsava a gente como pombas agourentas. Enquanto isso, as calçadas eram dominadas por trios de pequenas damas, algumas ajeitando o rabo-de-cavalo feito cuidadosamente no topo do cocuruto. Nos olhavam com hostilidade, como se fossemos criminosos, e éramos em parte. Quantas e quantas vezes não matamos aula pra roubar amora, pitanga, jabuticaba e até limão, só pelo prazer de usurpar. Deitados no cimento das arquibancadas, a gente enchia a pança com as frutas ainda verdes. Quando de fato começava o jogo, corríamos de lá. Era insalubre uma quadra com quinze garotas histéricas disputando ponto a ponto uma partida que não valia nada. Nas minhas primeiras tentativas de flerte, eu era o último a deixar a local. Mas nesse tempo, ninguém queria ninguém
O sol descia por detrás da igreja, desenhava a sombra do sino na parede da minha casa. Era perfeito, tanto que rabisquei a silhueta dele com um resto de spray qual pintei minha bicicleta. A projeção durava 7 minutos, tempo exato para um lanche. Feito, corria de volta ao bar onde meu pai certamente desafiava alguém. Guaraná liberado e quem sabe uns chicletes. A maior bola ganhava uma ficha. Por isso mascavamos com apetite e fúria, enquanto o sol terminava o seu trajeto diário, deixando as ruas da nossa vila amarelas como ouro.
4 - comentaram:
puts nuncaaaa imaginei que pebolim escrevia assim..kkkkkk
Conseguiu captar as emoções nostálgicas a ponto de representar as minhas, mesmo que não sejam as mesmas.
lindo, simples assim.
beijo.
Escreve bem e consegue fazer com que o leitor veja a cena inteira.
Lembrei da minha infância/adolescência e dos coktais de cidra que me deixavam embriagada!
Tempo bom!
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