Onze e quarenta. Bar do Beto.
— Deixa disso camarada. Abaixa esse cano cara, você vai assustar a rapaziada. O bar do Beto é família. Briga aqui só no dominó, quando valendo cerveja. Por falar nisso, vou pedir uma pra tu esfriar os nervos. Ou prefere algo mais forte? Lembra quando fugimos da aula pra beber coca com pinga? Se quiser, aqui vende rabo-de-galo, que é pinga com conhaque, bebida da nossa pré-formatura. Jogando sinuca, quem perdesse virava. Me lembro da gente botar as tripas pra fora em pleno calçadão da praia, de smoke e sapato bicolor. Tua gravata ficou toda torta e Aninha te deu um pito ao te ver naquele estado. Você ficou puto, com uma cara amarrada, parecida com a de agora, desarmado porém. Guarda isso rapaz. Sangue aqui só de carne mal-passada servida à tira-gosto aos domingos. O pessoal faz Carnaval, comemora gol sem saber o time, discute futebol de várzea e no fim tudo dá em nada, como muito na vida. Por isso peço, por obséquio: pegue um copo e vamos celebrar. Um brinde!
Primeiro tiro. Correria.
— P-a-r-a com isso. Poxa! Assim você enfraquece a amizade. Você vai acabar matando alguém, e morto aqui, só na Canastra. Inclusive a jogatina ia começar agorinha. Pife-pafe, Vinte-um, Truco, Rouba-monte, Sete-e-meio, Sueca, Mau-mau e Buraco, como este que você fez no teto. Pô parceiro, você espantou o pessoal. Quem vai servir a gente agora? Cadê o Beto pra fritar o torresmo? Quando há aposta, ouve-se apenas o embaralhar das cartas e o cracker-creker do toucinho quebrando o dente desses velhos viciados. Até hoje rio quando penso que nosso único troféu é o de "Campeonato de Purrinha", foi onde fiquei conhecido como "O rei da lona". Hoje em dia não se joga mais. É uma pena. Uma pena também você não desistir da ideia fixa de me dar um tiro e eu não sei direito o motivo. Se for grana me mata logo, ando quebrado. Só acho besteira morrer por dinheiro. Por amor é mais digno.
Tiro na perna.
— Tu tá de sacanagem? Cadê a consideração? Olha esse sangue, esse desperdício de vida. De uma vez por todas, alguém prepara uma caipirinha para esse cidadão sem estribeira, alguém por favor, sai debaixo da mesa e me alcança aquela garrafa de doze anos com meu nome no rótulo. Não precisa de copo, nem de gelo, só precisa ser depressa, pois esse sujeito não tem boas intenções com minha pessoa. Aparece depois de quase três anos, não me abraça, não me pergunta da gastrite, não me conta as últimas de Ana. Aliás, rezo que não seja ela o motivo desse imprevisto. Nós já conversamos, amigo, tu sabes que a moça nunca foi meu tipo. Quem quis assunto comigo foi ela, em Trindade, dezembro de noventa e um. Acampávamos no Breus'. Acordei cedo pra ver o sol e dei com ela nua na água. Ao me ver fez questão de sair do mar caminhando sinuosamente com seu corpo sardento, veio à mim com o biquíni nas mãos, sacudiu o cabelo ferrugem e me beijou a boca! Depois voltou pra sua barraca sem pronunciar uma sílaba. Vocês ainda não estavam de caso certo, e na época eu amava Marta, com quem, anos mais tarde, você também teve um affair. Aconteceu, acontece. A gente ama e odeia e adora e desconfia e se entrega a vida toda, pela mesma pessoa, e daí? No que deu isso tudo? Acho burrice matar e morrer por uma paixão que no fundo, não deu em nada.
Silêncio.
— Agora deixa dessa palhaçada. Põe na mesa o trabuco e vamos beber esse uísque, antes que eu feche a conta de vez.
9 - comentaram:
Passei por aqui...
Li e me diverti! Você é muito bom.
(-: Muito bom ter você por aqui!
Vish!
Pensei que o cara fosse morrer, ele conversa demais... uhauhahauhhuauha
Como vive dizendo meu pai: "hoje em dia é tudo resolvido na bala, não é como antigamente, no braço."
Muito bom!
Abç!
adorei, mesmo!
beijo.
muito bom.
redondo.
Faroeste e bang-bang rsrs Curti, hen rs
Estava reparando nos seus fios narrativos e cheguei a conclusão de que só um escritor em potencial, teceria isso.
Me arrancou ótimas risadas
Te abraço com carinho.
Não tem mais ? rs
SHOW DE BOLA LUCAO!!! Textos cada vez melhores!!!
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