Segunda-feira, Outubro 4

Só são sete da manhã.

No frio é pior, o povo fecha as janelas não sei com medo de quê. A respiração coletiva faz suar os vidros, o teto, os bancos e eu, que saí de casa agasalhadinho. Blusa, luva, toca e tudo. Sou muito friorento, mas tá um bafo aqui. Vou derreter. Vou arrancar esse exagero de roupa e esbarro em tudo, em todo mundo. Minha mochila ficou aberta. Caiu alguma coisa? Meu iPod, minha chave, meu Moleskine tá novinho, se alguém achar me devolve porque meu ponto talvez esteja próximo, não sei. Tá tudo embaçado dentro dessa pocilga. Ô cidadão, por gentileza abre a janela e me diz que rua é essa, que transito é esse, que poluição é essa, acho que vai chover. Meu guarda-chuva é enorme, se venta ele vira do avesso. O pessoal do ônibus tem mania de apoiar a mochila molhada no meu pé. Quero o guarda-chuva do Pinguim! Quero meter chumbo nesse gente chata, nesse indivíduo que acordou de mau humor e eu não tenho parte nisso, nessa pessoa espaçosa que senta ao meu lado toda esparramada, vem com esse bundão, com o cotovelo na minha cara, com esse livro grosso, com essa música além dos fones, com esse óculos de sol, e eu lhe pergunto: cadê o sol, ein? Quando não, alguém resolve roçar a braguilha no meu ombro. Alto lá minha gente, só são sete da manhã. Quero um guarda-chuva-metralhadora, quero matar a moça do tempo. Estou tão cansado. Quero ir embora, mas não pra casa porque deve tá uma bagunça: centrífuga, tanquinho e a panela de pressão gritando na cozinha. Meu cachorro é xarope, late quando a roupa balança no varal. E olha o sol aí! Se eu soubesse tinha lavado meu edredon. Meu cachorro é doido, ele ama a sombra que os lençóis estendidos desenham no quintal. Quero ir embora pra outra cidade, faz décadas que não vejo o mar. Quero água de coco sem ser de caixinha, enjoei de sombra de toldo. Anteontem vi fotos de praia no Facebook de alguém. “Amsterdã, Chile, Barcelona, Nova York e o resto do mundo” era o nome do albúm. Se não bastasse, a loura do terceiro andar insiste em conferir a marquinha de biquíni no espelho do elevador. Eu reclamo do calor, ela ignora. O mormaço não quebra o gelo entre a gente, mas aquele decote esquentou ainda mais o dia. Acho que vou derreter. Não me suporto. Quero ir pra casa, assistir a máquina de lavar cuspindo espuma porque exagerei no sabão outra vez. Meu cachorro é feliz, ele corre atrás das bolhas translúcidas que explodem em silêncio no meu quintal agora iluminado pelo sol omelete estalado no miolo desse céu preguiçoso, é abril. A meteorologista errou feio. Quero horas são? Amanhã ainda é quarta-feira.

8 - comentaram:

@heeldersilva disse...

A parte da confusão com a roupa e as luvas é quase minha descrição. huaahuhuahu

Cara, viajei tanto com esse texto que não queria mais que ele acabasse.

Gênio!
Abç!

Jéssica disse...

Quero ir pro Alasca!

Luc disse...

Me leva pra lá porque tá um bafo aqui dentro dessa caixa de texto.

dansesurlamerde disse...

é sempre abafado aqui dentro.

também quero o mar. não sei bem pra que. Cesare Pavese diz que nossos olhos já viram bastante de mar. Será?

beijo.

Dona Maria disse...

Hahaha, que desconexão bonita! As moças do tempo sempre erramm!

Vezzá disse...

Grande Luc.
Está ótimo. O caos fode o nosso dia, mas nos textos flui que é uma beleza.

Parabéns,
Vezzá

Ana D disse...

Mew, calor é sinônimo de stress...rs

Juliana S. disse...

Você escreve tão bonito.