Ela está cheia de sacolas e de saco cheio dessa gente lerda na escada-rolante. Ela acha curioso que o lado oposto da escada está sempre vazio. Veja só aquele sujeito, que felicidade, uma escada subindo só pra ele. Ele ouve música e olha pra tudo, sem ver nada.
Mais ou menos no meio da trajeto, eles se olham. Ela pensa se ele é ele; e ele, se ela é ela. E sim, são eles. Eles tentam se falar, mas não dá certo. Ele resolve descer, mas ela sobe. Não dá certo. Ele diz pra ela esperar lá. Ela espera, ansiosa, contando os degraus para dar um abraço nele. Um daqueles. Afinal, pô, tem o quê?, uns três anos que não se veem. Os lerdos agora paralisam a escada que sobe, mas ele os ultrapassa e vai pra o abraço, que acontece ali mesmo. Não dá certo. O encontro é abafado pela multidão que se embola no topo da escada, tentando desembarcar.
— “Vivi Causando Muito”, este deveria ser teu nome. Tive uma ideia: vou fazer um site, só com suas confusões pela cidade. Um livro! Isso se não pisotearem a gente antes. Aliás, outra ideia: sair daqui.
Meio cambeleando, meio levados, vão com a boiada. Entram na primeira loja possível. De música. Eles não gastam tempo com formalidades, com aquela coisa de perguntar se tá tudo bom, e como é que estão as coisas aí bicho. Eles vão direto ao assunto, à qualquer assunto. Eles se perdem na conversa. Ela se perde nas gondolas de rock.
— Vem cá, você ainda ouve The Smiths? “...why do I give valuable time to people who don't care if I live or die?”. Lembra?
— “…why do I smile at people who I'd much rather kick in the eye?”. Como não lembrar... é um clássico. Falando em clássico, o que você tem visto de bom, ein?
— Nada. O tempo tem sido cruel comigo. Quando preciso que ele passe devagar, ele acelera e idem ao contrário.
— Tive uma idéia: inventar um relógio que pare quando coisas boas estejam acontecendo, como este nosso encontro. Um relógio que passe depressa quando estamos com saudade. Um relógio que não tenha vontade própria...
Agora ela está ainda mais cheia de sacolas, cheia de uma felicidade instantânea, que não tem validade. O shopping está mais tranquilo, ele sugere um sorvete, mas ela tem que ir andando. O tempo cruel. Ele ameaça um tchau, ela solta as sacolas para outro abraço. Esse demora tanto que ele pensa que alguém já fez seu invento.
— A gente combina algo.
— Combina nada. Você sabe que isso é lenda.
— Fato. Ah, sei lá, a gente se encontra aí no mundão. Podemos ir pra minha casa, pegar um filme, ouvir The Smiths deitados no sofá. A gente finge que não acabou. Te faço bolo-de-cenoura, você ainda gosta. Né?
— Quero bolinho-de-chuva!
— Feito.
7 - comentaram:
eu nunca sei se esses encontros desencontrados são bons ou ruins.
beijo.
Lucas, o rei das casualidades!
Gostei muito da parte da escada rolante, rs.
Deu aquele pensamento de inveja (inveja boa) "por que não pensei nisso antes?"
Abç!
;D
hehehe! Dale Hélder.
Obrigado pela visita.
( :
Tão doce...quase como o bolinho de cchuva que prefiro ao de cenoura rs
Eu gosto muito desses textos que partem do cotidiano, simples, mas sobre sentimentos puros (nesse caso, amizade) e terminam com a brecha para a nossa imaginação (assim como começaram). Parabéns. É a primeira vez que entro no blog, mas já vi que vai ser vício (:
Gosto desses textos simples, que falam sobre coisas do cotidiano e sentimentos verdadeiros (nesse caso, a amizade). E o desenrolar dos fatos com um ritmo tranquilo, um final com uma brecha para nossa imaginação (assim como o começo). Parabéns, é a primeira vez que entro no blog, mas parece que vai virar vício! (:
Parabéns pelo texto, Lucas. Obrigada por passar no meu blog. Adorei o seu. :) Beijos.
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